terça-feira, 21 de novembro de 2017

Anos 90 em Brasília

Eu estava morando na Capital Federal do Brasil, no Planalto Central, em Brasília-DF, era mais um dia entediante e comum na rotina da vida escolar... acordar, escovar os dentes, tomar banho, vestir uniforme e ir para escola. Mas, neste dia em especial... foi diferente. 

Encostada no batente da porta de sala de aula aguardava ver chegando pelo corredor qual seria o novo professor ou nova professora de história, todas as salas em aula e nossa não. O corredor vazio e nossa sala de aula aguardando... não demorou muito passos fortes pisavam no corredor e nestes passos fortes cadenciados que lembravam uma marcha militar vinha na minha direção um homem alto com voz firme anunciou ser o professor de história. Pronto! A turma já percebeu que não seria um ano fácil e foi só o professor de história escrever seu nome dizendo que poderíamos chamá-lo de "Mestre" que tivemos a certeza que seria um ano difícil. No entanto, julgamos com antecedência cometendo grande injustiça porque foi o melhor professor que tivemos naquele ano! 

Mas, neste tempo da era analógica, eram os anos 90, dois anos depois de lançada a Constituição Federal de 1988. Tempo que o Regime Militar entregou o Governo do Brasil aos grupos políticos formados por civis (políticos, empresários e lideranças políticas), enquanto eu e alguns amigos estávamos no Congresso Nacional acompanhando tudo de perto, era o tempo que Ulysses Guimarães afastar do convívio com militares do Exército Brasileiro no poder de governantes e passar a aproximar ainda mais dos novos grupos políticos que iriam ditar as regres para Nação Brasileira. Assim, Ulysses Guimarães junto com Tancredo Neves chamaram o povo brasileiro para "Diretas Já"! Lá estava eu com alguns amigos chamando mais amigos de todas as escolas(colégios, universidades, etc) para apoiar um país com mais liberdade do que já existia para todo cidadão de bem e trabalhador. 

Realmente foi um tempo inesquecível, pois estava participando e presenciando momentos históricos da política no Brasil. 

Era um tempo incrível onde eu e meus amigos podíamos caminhar no Plano Piloto sem medo de dia, de noite ou de madrugada! O Plano Piloto em sua Asa Sul e sua Asa Norte era palco de muitas transformações políticas. 

Romeu Tuma era Diretor Geral da Polícia Federal destacando-se como capa principal nos maiores veículos de comunicação da época e com ele vinha Dr.Feltrin um Delegado de Polícia Federal e Diretor do DOPS que também foi Diretor do Ibama e Diretor do Departamento Penitenciário Brasileiro dentro do Ministério da Justiça. Em destaque dentro da Polícia Federal o ilustríssimo Delegado de Polícia Federal Dr.Ney a frente das investigações dos "Anões do Orçamento", "Pasta Rosa" e na investigação da morte de PC Farias (tesoureiro de campanha eleitoral do Presidente da República Federativa do Brasil Fernando Affonso Collor de Mello.

Entre escândalos políticos formava-se uma guerra contra grupos de políticos corruptos e a Rede Globo divulgava junto com outros veículos de comunicação todo tipo de crimes vindos das corrupções que se tinham notícias. Começaram dentro do Congresso Nacional as criações URGENTES de CPIs (Comissões Parlamentares de Inquéritos) tudo formado por políticos do Congresso Nacional para investigar crimes que a Polícia Federal estava investigando. Assim, os membros destas CPIs conseguiam chegar em todos os lugares que precisavam ir com muita agilidade e rapidez com poder para "busca e apreensão" de tudo que desejassem buscar ou apreender, chegavam até antes dos investigadores da Polícia Federal que exige protocolo de muita burocracia para conseguir deslocamentos que precisam de verbas, por exemplo: passagem de avião, diárias, etc. 

Enquanto a política, vários crimes federais e a corrupção pegavam fogo na Cúpula do Poder, no Congresso Nacional. Os jovens de Brasília cantavam Legião Urbana e o que mais tarde seria o Hino da Geração Anos 90 a música "tempo Perdido", o vocalista desta banda cantava "Que país é esse?" e todos sabiam a resposta assim como sabiam a letra desta música ou melhor a maioria dos jovem de Brasília sabiam todas as letras da banda "Legião Urbana". 

O rock brasileiro dos anos 80 e 90 era uma espécie de libertação e de cantar o que acontecia com todos naquela época, especialmente a indignação com tanto cinismo por parte de certos governantes que deveriam governar em favor do povo ou do interesse público e que governam para seus próprios interesses construindo verdadeiras fortunas, dos órgãos que deveriam fiscalizar e não fiscalizam a contento, dos órgãos que deveriam combater os crimes e especialmente das leis fracas que favorecem/incentivam as práticas de crimes em todo território brasileiro. 

No meio destes escândalos a maioria dos jovens de Brasília viam o mundo com outros olhos, era sempre uma visão mais ampla e globalizada sobre o que a Nação Brasileira estava se tornando mundialmente além de um lugar baseado em corrupções de todos os tipos e em todos os meios da sociedade.

As noites em Brasília durante os anos 90 além de muitos shows de rock contava com uma vida noturna agitada no "Gilberto Salomão" um complexo comercial em um local nobre chamado Lago Sul, também contava com uma situação interessante de jovens que saiam procurando festas no Lago Sul para entrarem sem convites e assim faziam muitas amizades novas. Lembrando que todos moravam em Brasília, sendo: Asa Norte, Asa Sul e Lago Sul; então, muitos eram conhecidos ou tinham um amigo em comum, mas a maioria dos jovens de Brasília eram filhos de autoridades federais ou de empresários locais facilitando muito a circulação de todos nos diversos ambientes de Brasília.      

Ir ao Pontão do Lago Sul durante a noite ou madrugada nos anos 90 para curtir o visual de Brasília refletido no Lago exigia estar com amigos, ter um violão, muito vinho para todos e fazer uma fogueira! A grande quantidade de eucaliptos argentinos (eucalyptus argentinos) que decoravam certo espaço no local dava a sensação de estarmos em outro país, mas estávamos em Brasília com seus espaços diferentes e espaços tão ricos de belezas únicas. Sem medo de errar... Brasília nos anos 80 e 90 era um dos lugares mais lindos do mundo para curtir, morar e realmente viver a vida com tranquilidade no meio do auge do punk rock que gerou e inspirou o surgimento de novas bandas no cenário do rock brasileiro!

Muitos movimentos de jovens ligados com a música criaram vários grupos em Brasília com estilos diferentes, tais como: punk, skinheads, metaleiros (heavy metal), roqueiros (rock nacional, rock internacional), músicas eletrônicas (foi um sucesso nas pistas de todas as casas noturnas e bailes no Brasil, no mundo todo), etc. 

A UNB (Universidade de Brasília) realizava alguns shows e o vocalista da banda Legião Urbana cantava por lá sem saber que ali estava nascendo um dos maiores cantores e compositores do rock no Brasil, não imaginava que seria capaz de reunir multidões cantando toda sua indignação e ao mesmo tempo todo seu romantismo, sua sede por viver e viver fazendo o que faz o coração feliz! 

Brasília com tantos movimentos políticos e musicais de transformação ainda recebeu no Eixão da Asa Norte um Trio Elétrico com Daniela Mercury cantando seu grande sucesso "A cor dessa cidade sou eu, o canto dessa cidade é meu..." o som era tal alto que as janelas dos prédios da Asa Norte tremiam! Eu que morava na Asa Norte percebendo que as janelas tremiam por causa do som resolvi descer para ver o que acontecia e olhando no Eixão vi algumas pessoas acompanhando o Trio Elétrico, como diz o ditado "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu..." Lá fui... atrás do trio elétrico até chegar próximo do Shopping Conjunto Nacional e voltei para casa porque tinha uma festa para ir. Brasília era assim, de repente... do nada surgia algo muito legal e todos iam para curtir sem medo de ser mais feliz! 

O Parque da Cidade em Brasília que originalmente recebeu o nome de Rogério Pithon Farias, um jovem - filho do então governador - que morreu em um acidente de carro. Foi renomeado para Parque Dona Sarah Kubitschek em 1997. O parque ganhou fama nacional por meio da música Eduardo e Mônica do grupo brasiliense Legião Urbana. Este Parque nos anos 90 era um point do pessoal de Brasília e de todas as idades, sem discriminações, cada pessoa escolhia o que iria fazer e curtia o que queria desde crianças brincando no espaço de brinquedos grátis ou pagando para brincar de pilotar kart enquanto os pais acompanhavam tudo na sombra, tomando alguma bebida gelada ou comendo deliciosos petiscos, ainda dentro do Parque o espaço da piscina com ondas era bem procurada nos fins de semana, as pistas para caminhada sempre bem frequentadas e as bikes transitavam pelo local tranquilamente.

No Parque da Cidade para quem procurava muita gente animada no embalo das músicas de axé e pagode bastava ir no espaço do "Coconut" um bar muito disputado pela turma que gostava do estilo contagiante de Chiclete com Banana (Cara Caramba), Ara ketu, Banda Eva (Pequena Eva), Asa de Águia (Durval Lelis), Netinho(Milla), Timbalada(Beija Flor), Oludum (Requebra), Terra Samba (libera Geral), Banda Beijo (Estrela Primeira), Banda Mel (Prefixo de verão), Fricote (Luiz Caldas), Raça Negra, Só Pra Contrariar, Exaltasamba, entre outros famosos na época. Neste Bar Coconut com um estilo que lembrava estar na Bahia servia whisky de boa qualidade e muitos frequentadores tinham o hábito de tomar whisky com gelo feito com água de coco tirada dos muitos cocos que eram vendidos neste bar, curtir um Happy Hour no Coconut no meio de semana era uma das melhores pedidas da época para quem gostava de local totalmente aberto, bem frequentado, com música de axé no volume bem alto e gente de bem querendo só curtir um fim de tarde mais alegre. 

O Parque da Cidade contava com outros espaços como o lago com pedalinho e haviam dois estabelecimentos próximos que ofereciam boas bebidas geladas, boa comida e boa música, para não ficar na vontade valia curtir o pedalinho pedalando junto com as amigas ou amigos e ainda frequentar os dois estabelecimentos com música! 

No Plano Piloto entre os bares da Asa Norte e Asa Sul era difícil dizer quais eram os melhores bares ou restaurantes todos ofereciam bons ambientes com tudo que o dinheiro podia pagar e para todos os tipos de bolsos. Então, valia muito ir trocando os bares para conhecer todos, inclusive neste tempo era comum muitos jovens (adolescentes 15 a 17 anos) se reunindo em rodízio de pizza para desespero do dono da pizzaria! 

Nessa época em que o analógico dominava tudo e ter secretária eletrônica com bina em um telefone sem fio era pura ostentação, eis que chega a novidade de um aparelho de telefone que podia ser levado para todo lugar que era capaz de receber ligações e fazer ligações, este aparelho chama-se "celular". Pronto! Acabou a paz e a tranquilidade... agora quem tivesse este aparelho celular poderia ser encontrado mesmo se desejasse não ser encontrado! No entanto, custava tão caro no início de seu lançamento que poucos conseguiam comprar e pagar a conta do mês que era estratosférica! (É pra não chorar... mas, ninguém naquele tempo poderia imaginar que não iria demorar para todo mundo poder ter um celular ou mais de um celular!) 

Anos 90... celular era aquele tijolão e com capa para não molhar, não pegar poeira e especialmente proteger de estragar o chão porque o aparelho não era leve! Ir em restaurante em Brasília ficou insuportável com tanto celular tijolão, tocava um e tocava outro, de repente todos tocando! Uma pessoa gritava "é o meu celular que está tocando" e outro gritava mais alto "não é o seu, é o meu celular que está tocando"! Outros gritavam "é aqui comigo", "é o meu celular"; na realidade todos chamavam e naquela gritaria "é meu celular" os restaurantes e bares de Brasília viraram locais de ostentar celular. 

Para quem tinha celular tinha que estar acompanhando uma agenda eletrônica digital guardando os contatos mais importantes. Era bem assim!

Mas as músicas vinham gravadas em LP e fita K7, as fitas eram sucesso por serem fáceis de transportar e de ouvir no walkman (um toca fitas portátil) que alguns jovens ouviam indo para todos os lugares. Era sucesso entre os jovens! Quem tinha o som 3 em 1 em casa reunia os amigos para ouvirem músicas com cada um levando suas músicas prediletas, o 3 em 1 era um som que rodava as músicas gravadas em LP, fita K7 e sintonizava as rádios, mas rádio dos jovens em Brasília nos anos 90 era Rádio Transamérica FM (início dos anos 90 em todos os lugares era Transamérica FM) que realizava promoções que atraiam os jovens; por exemplo fazer na Praça de Alimentação no Shopping Conjunto Nacional um concurso de quem comia mais rápido uma taça cheia de sorvete e quem comia mais rápido um sanduíche enorme!

Fim dos anos 80... Início dos anos 90... em Brasília aconteceram tantas coisas que dá para escrever um livro! Ops! Acho que vou fazer isso, mas somente escrever o que pode ser contato. Afinal, nem sempre a verdade liberta, muitas vezes a verdade pode aprisionar com aquele tal de "devido processo legal"(legal de legislação) que nem é tão legal(legal de bom) assim!

Eh, Brasília... Geração anos 80 e 90... a última geração que viveu em sua totalidade a era do analógico! Na Capital Federal um tempo que era possível ser muito feliz com as coisas mais simples da vida, por exemplo curtindo(convivendo) as amizades, fazendo mais amizades, brincando com os amigos em parques, indo curtir os clubes no Lago Sul, indo nas festas do Minas Tênis Clube, curtir as animadas festas do Clube da AABB, passear de lancha no Lago, andar de bicicleta em grupo, passear de carro pela cidade de madrugada curtindo os lugares bonitos, na época de Natal sair de carro para apreciar as luzes da Esplanada dos Ministérios, indo ao aeroporto para comprar passagens com desconto no balcão da empresa aéreas, saber curtir música conversando com os amigos sobre várias músicas, planejando para ir em muitos shows, combinando viagens juntos  e todos trocando informações sobre o que estava acontecendo de novidades boas nos outros estados, nos outros países uma vez que todos os amigos viajavam muito para diversos lugares. 

Tudo destas gerações foi vivido com muita intensidade e de tal forma que repercute no tempo! Todas as simplicidades e alegrias legítimas ficaram como grande legado para que outras gerações não deixem de encontrar na simplicidade toda a felicidade que precisam para continuarem bem firmes nesta incrível jornada que é a vida! 

Claudia Lima Brasil 
                
              






            
 

Onde mora a felicidade

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade será mera coincidência.  

Quando eu era criança, era uma menina super ativa, uma menina muito elétrica, lá nos anos 80 aqueles bons tempos do analógico, do tempo de colecionar "papel de carta", usar "Melissinha", andar de "mobilete" com um bando de crianças e adolescentes, participar de "quilômetro de arrancada" para ver qual amigo tinha o carro que corria mais rápido, ir nas festas de garagem, curtir shows do rock nacional brasileiro como RPM, Blitz, Lobão, Titãs, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Biquini Cavadão, Capital Inicial, Legião Urbana, Ratos de Porão, Detrito Federal (BSBH Terror), etc. Um tempo que não existia "Código de Trânsito" como conhecemos hoje, não existia Estatuto da Criança e do Adolescente. Um tempo quando tudo que envolvia menor de idade era responsabilidade e culpa dos pais ou responsáveis pelo menor de idade, foi neste tempo bom quando só era maior de idade quem completasse 21(vinte e um) anos  que fui crescendo com a liberdade total que meu pai me dava de saber o que é certo e errado (na visão de meu pai) sem nunca levar problemas para ele por já ter problemas demais para preocupar-se como as contas para pagar "da minha mãe e dos filhos"! Todos os meus amigos e amigas falavam "queria ter uma pai igual o seu"! Eu sabia que meu melhor amigo para vida toda era meu pai que era um armário de grande impondo muito respeito onde chegava, mas quando estava fardado e armado o respeito era muito maior! Era um militar do Exército Brasileiro com notório saber militar/administrativo e muito estimado pelos "irmãos de farda"! No entanto, meu pai era do tipo muito protetor comigo, sempre foi assim até a minha velhice... lá estava ele me protegendo das garras do mundo cruel!          

Voltando... Quando eu era criança meu pai ensinou a nunca aceitar nada de estranhos ou conhecidos, especialmente de pessoas conhecidas como "parentes". 

Meu pai selecionou o domingo como o dia de visitar os pais dele e outros parentes que na casa dos meus avós reuniam-se aos domingos. Era um verdadeiro sacrifício para mim e meu irmão menor que queríamos brincar em casa e não ter que ir para um lugar onde o tempo todo nós éramos parados com frases: 

-Não pode correr!

-Pare de correr senão chamo seu pai! 

-Pare de rir que está incomodando! 

-Pare de falar que perturba a conversa dos adultos!

Pare disso... pare daquilo... não pode brincar aqui... não pode fazer nada...    

Então, eu e meu irmão tínhamos que virar duas estátuas aguardando a melhor hora do domingo... a hora de voltar para casa. 

Enquanto a hora de ir para casa não chegava eu e meu irmão éramos obrigados a ficar ouvindo as conversar dos grupos de adultos porque não éramos surdos enquanto alguns grupos de adultos falavam muito alto, mas adultos podem falar alto e até falar berrando aos gritos com alto e bom som... quem não pode fazer nada são as crianças tendo que presenciar estes péssimos exemplos. Como eu não era surda ouvia um grupo comentando da vida de algum parente e depois outro grupo falando de outro parente, em um momento um parente comenta que uma irmã sustenta o marido e outro retruca que são duas irmãs que sustentam maridos em meio risadas como se fosse uma grande piada, em seguida lamentavam que a sorte do amor verdadeiro nunca sorriu para estas irmãs que só faziam trabalhar para sustentar homens sem futuro que viviam na sombra de mulheres.  

Outro grupo tentava comentar baixinho, mas dava bem para ouvir de longe, que adotar uma criança era algo muito perigoso e os comentários maldosos eram muitos... adotar criança somente em último caso se o marido não pode ter filhos ou até quando filho(a) adotado(a) começa a crescer é só trabalho, desgostos, prejuízos financeiros e decepções... no entanto, nem sempre é assim porque filhos de sangue ou filhos adotados podem ser bons e ruins cada qual com suas glórias ou suas desgraças. 
 
Um grupo mais animado só contava piadas e riam de gargalhadas, porém eu não conseguia entender e aproveitava para rir das risadas engraçadas de cada adulto.

Em um grupo as conversas eram muitos sérias e era um verdadeiro debate de opiniões variadas sobre os rumos que o Brasil estava indo, do risco que o povo brasileiro não fazia ideia do quanto poderia sofrer se a criminalidade viesse a aumentar e do quanto estava próximo o momento do Brasil viver no caos daqui 4 décadas.

Um outro tio (casado com uma das irmãs do meu pai), indiferente aos outros adultos, ficava sentado sozinho em uma poltrona da varanda lendo o jornal de domingo de graça na casa do meus avós. Ele sempre chamava-me pelo meu apelido carinhoso e começava a conversar comigo achando graça de certos parentes, assim rimos muito juntos; ele comentava alguns assuntos do jornal comigo e falava suas opiniões para eu ficar ouvindo, em seguida dizia que iria ler mais e que eu poderia voltar a brincar com meu irmão. (Brincar de estátua, claro!)

Em certos domingos alguns primos também apareciam trazidos por meus tios e tias, era até interessante, mas eu e meu irmão sendo bem treinados pelo pai mais observamos as situações de perigo que estes primos poderiam criar. No geral, meu pai já informava que não haveriam grandes trocas de relevantes conhecimentos e que este tipo de situação era apenas uma convenção social onde é necessário estar presente em certos eventos familiares por questão de manter laços com a família para depois lembrar de conexão familiar evitando traumas emocionais futuros.           

Quando meu pai anunciava que era hora de despedir dos parentes eu e meu irmão já éramos muito rápidos em despedir chamando cada um pelo nome. Despedir corretamente exigiu de mim e de meu irmão ter que decorar o nome de todos os parentes, eram muitos nomes, mas nunca erramos um nome! A despedida era bem formal tendo que ir em cada parente anunciar que está indo embora, estender a mãozinha ao parente e pedir "Bença" falando em seguida o nome da pessoa, eram muitos: 
-Já entou indo! (Entende a mãozinha) Bença Tia Fulana... 
-Já estou indo! (Estende a mãozinha) Bença Tio Beltrano... 
Eu e meu irmão fomos treinados para vida em família e em sociedade!(risos) Só que em ambos os casos existem muitos obstáculos criados pelos seres "ditos" humanos! 
          
Finalmente, no domingo, quando eu e meu irmão chegávamos em casa toda a programação boa do domingo para crianças na televisão já havia terminado. Que situação! Anos 80 quem comandava na televisão a programação infantil no período da manhã era o Programa Silvio Santos e os desenhos da Rede Globo. 

Agora uma pausa para lembrar algo... Lembro que todo domingo meu pai sempre "obrigava" eu e meu irmão assistirmos bem cedo "Santa Missa em seu lar", depois tínhamos que assistir Globo Rural para aprender como se trabalha com as plantas e os animais. Quando criança eu era muito fã da jornalista Paula Saldanha apresentadora do programa "Globinho" na Rede Globo. 

Voltando... Finalmente... Restava apenas aproveitar o pouco do fim de tarde que não tinha mais como ir brincar na rua com os amigos jogando "queimada", pulando "amarelinha", "esconde-esconde", "pique-pega", "passa anel", "adivinhações", etc... restava somente ir ao quintal subir nas grandes mangueiras escalando cuidadosamente cada galho para ver lá do alto o horizonte de telhados, os quintais dos vizinhos e em época de manga poder colher as mangas maduras lá no alto apreciando o céu azul, a sombra fresca, o vento que acariciava meus cabelos, o cantar dos pássaros, a liberdade de um tempo descobrindo que é na simplicidade que mora a felicidade!    

Claudia Lima Brasil