Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade será mera coincidência.
Quando eu era criança, era uma menina super ativa, uma menina muito elétrica, lá nos anos 80 aqueles bons tempos do analógico, do tempo de colecionar "papel de carta", usar "Melissinha", andar de "mobilete" com um bando de crianças e adolescentes, participar de "quilômetro de arrancada" para ver qual amigo tinha o carro que corria mais rápido, ir nas festas de garagem, curtir shows do rock nacional brasileiro como RPM, Blitz, Lobão, Titãs, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Biquini Cavadão, Capital Inicial, Legião Urbana, Ratos de Porão, Detrito Federal (BSBH Terror), etc. Um tempo que não existia "Código de Trânsito" como conhecemos hoje, não existia Estatuto da Criança e do Adolescente. Um tempo quando tudo que envolvia menor de idade era responsabilidade e culpa dos pais ou responsáveis pelo menor de idade, foi neste tempo bom quando só era maior de idade quem completasse 21(vinte e um) anos que fui crescendo com a liberdade total que meu pai me dava de saber o que é certo e errado (na visão de meu pai) sem nunca levar problemas para ele por já ter problemas demais para preocupar-se como as contas para pagar "da minha mãe e dos filhos"! Todos os meus amigos e amigas falavam "queria ter uma pai igual o seu"! Eu sabia que meu melhor amigo para vida toda era meu pai que era um armário de grande impondo muito respeito onde chegava, mas quando estava fardado e armado o respeito era muito maior! Era um militar do Exército Brasileiro com notório saber militar/administrativo e muito estimado pelos "irmãos de farda"! No entanto, meu pai era do tipo muito protetor comigo, sempre foi assim até a minha velhice... lá estava ele me protegendo das garras do mundo cruel!
Voltando... Quando eu era criança meu pai ensinou a nunca aceitar nada de estranhos ou conhecidos, especialmente de pessoas conhecidas como "parentes".
Meu pai selecionou o domingo como o dia de visitar os pais dele e outros parentes que na casa dos meus avós reuniam-se aos domingos. Era um verdadeiro sacrifício para mim e meu irmão menor que queríamos brincar em casa e não ter que ir para um lugar onde o tempo todo nós éramos parados com frases:
-Não pode correr!
-Pare de correr senão chamo seu pai!
-Pare de rir que está incomodando!
-Pare de falar que perturba a conversa dos adultos!
Pare disso... pare daquilo... não pode brincar aqui... não pode fazer nada...
Então, eu e meu irmão tínhamos que virar duas estátuas aguardando a melhor hora do domingo... a hora de voltar para casa.
Enquanto a hora de ir para casa não chegava eu e meu irmão éramos obrigados a ficar ouvindo as conversar dos grupos de adultos porque não éramos surdos enquanto alguns grupos de adultos falavam muito alto, mas adultos podem falar alto e até falar berrando aos gritos com alto e bom som... quem não pode fazer nada são as crianças tendo que presenciar estes péssimos exemplos. Como eu não era surda ouvia um grupo comentando da vida de algum parente e depois outro grupo falando de outro parente, em um momento um parente comenta que uma irmã sustenta o marido e outro retruca que são duas irmãs que sustentam maridos em meio risadas como se fosse uma grande piada, em seguida lamentavam que a sorte do amor verdadeiro nunca sorriu para estas irmãs que só faziam trabalhar para sustentar homens sem futuro que viviam na sombra de mulheres.
Outro grupo tentava comentar baixinho, mas dava bem para ouvir de longe, que adotar uma criança era algo muito perigoso e os comentários maldosos eram muitos... adotar criança somente em último caso se o marido não pode ter filhos ou até quando filho(a) adotado(a) começa a crescer é só trabalho, desgostos, prejuízos financeiros e decepções... no entanto, nem sempre é assim porque filhos de sangue ou filhos adotados podem ser bons e ruins cada qual com suas glórias ou suas desgraças.
Um grupo mais animado só contava piadas e riam de gargalhadas, porém eu não conseguia entender e aproveitava para rir das risadas engraçadas de cada adulto.
Em um grupo as conversas eram muitos sérias e era um verdadeiro debate de opiniões variadas sobre os rumos que o Brasil estava indo, do risco que o povo brasileiro não fazia ideia do quanto poderia sofrer se a criminalidade viesse a aumentar e do quanto estava próximo o momento do Brasil viver no caos daqui 4 décadas.
Um outro tio (casado com uma das irmãs do meu pai), indiferente aos outros adultos, ficava sentado sozinho em uma poltrona da varanda lendo o jornal de domingo de graça na casa do meus avós. Ele sempre chamava-me pelo meu apelido carinhoso e começava a conversar comigo achando graça de certos parentes, assim rimos muito juntos; ele comentava alguns assuntos do jornal comigo e falava suas opiniões para eu ficar ouvindo, em seguida dizia que iria ler mais e que eu poderia voltar a brincar com meu irmão. (Brincar de estátua, claro!)
Em certos domingos alguns primos também apareciam trazidos por meus tios e tias, era até interessante, mas eu e meu irmão sendo bem treinados pelo pai mais observamos as situações de perigo que estes primos poderiam criar. No geral, meu pai já informava que não haveriam grandes trocas de relevantes conhecimentos e que este tipo de situação era apenas uma convenção social onde é necessário estar presente em certos eventos familiares por questão de manter laços com a família para depois lembrar de conexão familiar evitando traumas emocionais futuros.
Quando meu pai anunciava que era hora de despedir dos parentes eu e meu irmão já éramos muito rápidos em despedir chamando cada um pelo nome. Despedir corretamente exigiu de mim e de meu irmão ter que decorar o nome de todos os parentes, eram muitos nomes, mas nunca erramos um nome! A despedida era bem formal tendo que ir em cada parente anunciar que está indo embora, estender a mãozinha ao parente e pedir "Bença" falando em seguida o nome da pessoa, eram muitos:
-Já entou indo! (Entende a mãozinha) Bença Tia Fulana...
-Já estou indo! (Estende a mãozinha) Bença Tio Beltrano...
Eu e meu irmão fomos treinados para vida em família e em sociedade!(risos) Só que em ambos os casos existem muitos obstáculos criados pelos seres "ditos" humanos!
Finalmente, no domingo, quando eu e meu irmão chegávamos em casa toda a programação boa do domingo para crianças na televisão já havia terminado. Que situação! Anos 80 quem comandava na televisão a programação infantil no período da manhã era o Programa Silvio Santos e os desenhos da Rede Globo.
Agora uma pausa para lembrar algo... Lembro que todo domingo meu pai sempre "obrigava" eu e meu irmão assistirmos bem cedo "Santa Missa em seu lar", depois tínhamos que assistir Globo Rural para aprender como se trabalha com as plantas e os animais. Quando criança eu era muito fã da jornalista Paula Saldanha apresentadora do programa "Globinho" na Rede Globo.
Voltando... Finalmente... Restava apenas aproveitar o pouco do fim de tarde que não tinha mais como ir brincar na rua com os amigos jogando "queimada", pulando "amarelinha", "esconde-esconde", "pique-pega", "passa anel", "adivinhações", etc... restava somente ir ao quintal subir nas grandes mangueiras escalando cuidadosamente cada galho para ver lá do alto o horizonte de telhados, os quintais dos vizinhos e em época de manga poder colher as mangas maduras lá no alto apreciando o céu azul, a sombra fresca, o vento que acariciava meus cabelos, o cantar dos pássaros, a liberdade de um tempo descobrindo que é na simplicidade que mora a felicidade!
Claudia Lima Brasil
